quarta-feira, 24 de fevereiro de 2010

A Lenda da Pororoca

"Diz a lenda que, antigamente, a água do rio era serena e corria de mansinho. As canoas podiam navegar sem perigo. Nessa época, a Mãe d’Água, mulher do boto Tucuxi, morava com a filha mais velha na ilha de Marajó. Certa noite, elas ouviram gritos: os cães latiam, as galinhas e os galos cocorocavam. O que é? O que não é? Tinham roubado Jacy, a canoa de estimação da família...

Remexeram, procuraram e, nada encontrando, a Mãe d’Água resolveu convocar todos os seus filhos: Repiquete, Correnteza, Rebujo, Remanso, Vazante, Enchente, Preamar, Reponta, Maré Morta e Maré Viva. Ela queria que eles achassem a embarcação desaparecida. Mas passaram-se vários anos sem notícia de Jacy. Ninguém jamais a viu entrando em algum igarapé, algum furo ou mesmo amarrada em algum lugar. Certamente estava escondida, mas, aonde?

Então, resolveram chamar os parentes mais distantes - Lagos, Lagoas, Igarapés, Rios, Baías, Sangradouros, Enseadas, Angras, Fontes, Golfos, Canais, Estreitos, Córregos e Peraus - para discutir o caso. Na reunião, resolveram criar a Pororoca, umas três ou quatro ondas fortes que entrassem em todos os buracos dos arrebaldes, quebrassem, derrubassem, escangalhassem, destruíssem tudo e apanhassem Jacy e o ladrão. Ficou determinado que a caçula da Mãe D´Água, Maré da Lua, moça danada, namoradeira, dançadeira e briguenta avisaria sobre qualquer coisa que acontecesse de anormal.

E foi assim que pela primeira vez surgiu em alguns lugares o fenômeno, empurrado pela jovem moça, naufragando barcos, repartindo ilhas, ameaçando palhoças, derrubando árvores, abrindo furos, amedrontando pescadores... Até hoje, sempre que Maré da Lua vai ver a família é um deus nos acuda! Ninguém sabe de Jacy e a Pororoca segue em frente destruindo quem ousa ficar na frente, cumprindo ordens do boto Tucuxi que, resmungando danado, diz: “Pois então continue arrasando tudo.”

[texto de Raimundo Morais]
foto do blog Brasil, mitos e lendas.

>> uma homenagem aos Caruanas do Soure, na Ilha do Marajó, Pará!

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2010

Conan, o Cão


Meu nome é Igor, tenho dez anos de idade e portanto sou considerado uma criança. Tenho uma vida restrita por um monte de obrigações, regras e acima de tudo, proibições. Muitas proibições. É justamente por isso que freqüentemente me encontro debaixo da minha escrivaninha, onde tento elaborar saídas para os dilemas do meu dia-a-dia. Até pouco tempo, quando as coisas não aconteciam da maneira como eu queria, eu me considerava um fracassado. É claro que eu lutava, mas as forças opostas eram muito maiores. No entanto, existe um ponto na vida de toda criança em que é preciso lutar contra os nãos que os adultos dizem para a gente. Comecei minha batalha contra as autoridades quando fui proibido de ter um bicho de estimação.

Aquilo para mim foi a gota d'água. Não era como querer ir a um parque de diversões, ao shopping, ou comprar um brinquedo qualquer. Eu precisava de um bicho. Era algo que eu não sossegaria enquanto eu não conseguisse. E como não podia deixar de ser, meus pais proibiram. Sem nenhum motivo sequer. Simplesmente disseram não, como todos os outros nãos anteriores.

Eles não compreenderam que a situação era diferente. Mesmo sabendo de todas as dificuldades que eu encontraria, decidi ir atrás do meu bicho. Eu enfrentaria a Dona da Casa, meu pai e quem mais fosse preciso. Estava determinado, só precisava de um plano e um companheiro ou companheira para me ajudar na batalha. Quanto a isso, pelo menos, eu tenho sorte. Minha vó é uma aliada para qualquer crise.

Vó Ursula sempre me ajudou, até nas coisas mais proibidas e perigosas. Ela é doida de pedra e sempre concorda com as minhas idéias. Ela foi a primeira pessoa a saber do meu plano, e durante um bom tempo foi a única. Lembro-me da nossa primeira conversa, quando elaboramos nossa estratégia. Pedalei até sua casa para lhe explicar a situação. Só não contava com uma coisa; Vó Ursula tinha acabado de entrar numa fase espiritual. Chegando lá, a encontrei diante de um altar cheio de velas. Ela rezava, compenetrada. Fui entrando pé ante pé e esperei que ela terminasse. Quando acabou me deu um beijinho, a benção e perguntou o que eu estava aprontando.

Contei o que eu pretendia aprontar. Ela ouviu calmamente e disse que eu devia pedir ajuda de Deus. Achei aquilo estranhíssimo, pois Vó Ursula é uma mulher de ação. Perguntei se Deus demoraria para atender e ela respondeu que dependia da intensidade da reza. Não era bem o tipo de ajuda que eu queria, mas como era conselho da minha vó, achei melhor respeitar, meio a contragosto, mas segui a orientação. À noite, antes de dormir, me ajoelhava ao pé da cama e pedia a Deus que mandasse um cachorrinho para mim. Noite após noite, durante meses, eu rezei. De dia continuava tramando planos mirabolantes, mas que nunca davam certo.

Papai ainda morava conosco nessa época. Um dia, durante o jantar, ele disse:

- Ígor, temos uma surpresa para você!

Soube na hora que finalmente Deus tinha ouvido minhas preces e eu ganharia meu cãozinho. Ele continuou:

- Sua mãe está grávida!

Fiquei chocado. Fui bem específico. Encomendei um cachorro, até a raça eu escolhi; queria um dálmata. Não tinha como Deus se confundir. Toda santa noite eu falava em voz alta, para não ter engano: "Câmbio. Deus, aqui quem fala é o Ígor, filho da Bia com o Pedrão, nascido em treze de junho, neto da Vó Ursula. Meu pedido é: um cachorrinho, dálmata, macho e sem pulgas. É só. Obrigado, Ígor. Câmbio e desligo."

Olhei para mamãe, que tentava conter um sorriso encabulado. Dei-lhe um abraço e vim para debaixo da escrivaninha. Tentava entender onde errei. Tinha feito tudo conforme Vó Ursula mandou, e Deus costuma atender esses pedidos do dia-a-dia. Ainda mais o meu, que era tão simples. Para quem já fez dinossauros, o que custava fazer mais um cachorro? Alguma coisa muito estranha estava acontecendo. Então, como uma luz que acendeu sobre minha cabeça, percebi o truque divino. Na verdade, eu teria um cão-irmão. Claro, dessa maneira, se o cachorro viesse de dentro da barriga da minha mãe, ela não teria como proibir. Genial! Deus percebeu o quanto eu queria um cachorro e resolveu fazer um servicinho a mais, enviando um irmão-cachorro.

Era totalmente possível! Outro dia mesmo eu tinha visto na televisão um homem com rabo. Um rabão enorme. Ele abaixou as calças em frente à camera e mostrou um rabo peludo, grudado na bunda. Eu nunca imaginei que uma coisa dessas fosse acontecer na minha família, mas acontece. Vó Ursula mesmo vivia dizendo que Deus tem suas maneiras de fazer as coisas. Solucionado o caso! Eu não contei para ninguém, porque é esquisito e também porque ninguém acreditaria em mim.

Acompanhei a gravidez de bico calado. Era uma questão de tempo até o cãozinho estar completamente formado dentro da barriga da minha mãe. Passei esses meses planejando meus passeios com Conan, o Cão. Esse é o nome que eu daria para ele, em homenagem ao meu pai, que me apresentou esse antigo herói de revistas em quadrinhos.

Bem, na verdade, quando vi mamãe comprando roupinhas de bebê, senti um pouco de dó. Temi que ela ficasse decepcionada com a surpresa. Ela acreditava que teria uma menina, coitada. Nem passava pela sua cabeça ser mãe de um dálmata. Pensei em lhe dizer a verdade, mas não tive coragem. Apenas perguntei:

- Mãe, você vai amar o bebê mesmo que ele seja diferente?

- Claro - ela respondeu. - Eu vou amá-lo igualzinho eu amo você.

Pronto, era o que eu precisava saber. Não tocaria mais no assunto para não levantar suspeitas. Quer dizer, na verdade, insisti mais um pouco.

- Mesmo que ele nasça com orelha, rabo, pêlo, que nem a gente vê na televisão?

- Vou amá-lo mesmo que seja um monstrinho - ela respondeu, sorridente.

- Que legal, mãe!

Eu tinha feito minha parte. Disse, mesmo não dizendo diretamente, o que vinha pela frente. Confesso que fiquei impressionado com a reação dela. Não esperava que ela fosse tão compreensiva. Se eu soubesse, teria rezado por um monstrinho, como ela mesma sugeriu. Seria até mais divertido que um cachorro. Mas agora era tarde demais. O bicho estava quase para nascer.

Fui paciente e um belo dia, ao final de nove meses, meus pais foram para a maternidade. Fiz questão de ir junto e acompanhar o grande acontecimento. Aguardei sentado na sala de espera, junto com a Vó Ursula. Por maior que fosse minha vontade de lhe revelar o que estava prestes a acontecer, não disse um pio. Quando a enfermeira me chamou para entrar no quarto, fiquei emocionado.

- Você já pode entrar para ver - ela disse.

Pelo olhar da enfermeira soube que tudo correra bem e que mamãe tinha aceito o cãozinho como um filho de verdade. Entrei correndo no quarto, pronto para pegar Conan; O Cão no colo, quando vi minha mãe segurando um bebê de verdade.

- Cadê? - perguntei, espantado.

- Aqui, ué. Nesse embrulhinho - ela respondeu, sacudindo um volume cor-de-rosa.

Pulei na cama. Era um bebê mesmo, e o que é pior, uma menina! Credo!

Aquele bebê passou a viver conosco. Levaram-na para casa no mesmo dia, com a maior naturalidade do mundo, como se nada de errado tivesse acontecido. Ela chorava que nem um bezerro desmamado e todo mundo achou aquilo lindo. Obviamente eu tinha sido enganado, mas a essa altura do campeonato, eu já estava louco para ter um cachorro. Fui direto ao ponto e pedi novamente, não para Deus, mas para minha mãe mesmo. E o que eu ouvi como resposta?

"Agora com a Gabi em casa não podemos ter um cachorrinho tão cedo."

Algumas crianças ganham cães, eu ganhei uma irmãzinha. Fiquei arrasado, achava que meu destino era acabar só. Estava quase me conformando com a situação quando o bebê chorão calou a boca e para meu espanto, começou a engatinhar. Aliás, finalmente aquele serzinho mostrava algum sinal de inteligência, porque até então ela era um pacote que a coitada da minha mãe carregava de um lado para outro.

Vendo Gabriela engatinhar toda desengonçada, fiz o que qualquer pessoa normal faria, joguei um carrinho em sua direção para ver se ela pegava. Se ela pegasse eu a treinaria com um osso de plástico. E não é que a danada foi atrás do carrinho? Parecia um milagre! Fiquei tão feliz que a partir desse dia passei a chamá-la de Conan, a Cadela. Durante os meses seguintes a gente brincou muito, rolávamos no chão, conversávamos latindo um com o outro, para onde eu fosse Conan, a Cadela ia atrás. Não tão ligeiro quanto eu gostaria, mas ia. Era uma companhia legal. Eu a imaginava com orelhas, dentes e a pele manchada de preto e branco. Nunca consegui colocar uma coleira nela e levá-la para passear, mas ensinei alguns truques que ela aprendeu rapidinho. Eu me divertia, de certa forma. Mas para minha tristeza, um dia Conan aprendeu a falar e daí não tive mais como fingir. Aquilo virou gente mesmo.

[texto de Indigo, do livro Saga Animal, Editora Hedra. Ilustração de Bruno Galan]