terça-feira, 6 de novembro de 2007

O Eclipse

"...
Surgiu, então, a Lua, debruçada em sua janela. E, vendo que lá não mais estavam aqueles versos que pranteara na noite anterior, perguntou:
- Onde estão as contas de meu colar de tristeza?
- Recolheu-as um sujeito que, embora de brilho intenso, tem por guia uma solidão cega. Sorveu tuas palavras com paixão e ama-te sem jamais te ter visto. Foi por ali, seguindo teus passos.

E a Lua esperançosa seguiu na mesma direção. Assim iam levando suas vidas desencontradas.
Cansado daquela busca infinda, o Sol foi bater à porta da casa do Destino, que era astrólogo, tarólogo, quiromante, jogava búzios e também era médico traumatologista. Garantiu-lhe o adivinho que em breve o moço encontraria sua amada: - Como tu a imaginas?
- A dona de tais versos tem a face radiante, longos cabelos negros que ela escova mirando-se num pacífico espelho, por sua beleza encantado. Sobre esse espelho, quantas caravelas não terão se perdido de paixão, perseguindo sua miragem! Ao vê-la, brilhante como a imagino, sentirei esse fogo que queima diverso, consumindo o tempo, as palavras e a razão. estarei mudo esperando que me banhe com sua luz e beleza, enquanto me toca com seus lábios quentes, de onde brotaram todos aqueles versos líquidos que sorvi com avidez.
Por sua vez, cansada de sua busca, a Lua também veio à porta do Destino, com voz de cigana.
- Só pode ser o meu senhor, esse desconhecido que rouba de mim cada um de meus pensamentos. Ah, e por esse inocente furto espero que o condenem a ser prisioneiro perpétuo de meu coração. Revela-me, por favor, como é esse que amo sem jamais tê-lo visto! - Dize-me tu - solicitou o Destino.
- Com certeza é moço de olhos mortiços, tímidos e romântico. Quem mais se ocuparia de colher versos que espalho com desesperança pelo caminho? Eu o reconhecerei pelos seus modos, sua aura silenciosa, pelo toque cálido de seus dedos em meus ombros, o que trará, num arrepio impudico, a certeza de que o amor chegou.
Cumpriu-se a previsão dos búzios e do tarô. Numa rua qualquer, passaram um pelo outro. Mas não viu nela, o Sol, senão palidez e uma tristeza que se projetava como sombra. Não, não seria aquela a senhora de suas quimeras. Por sua vez, a Lua, incomodada, deu as costas àquele que passava, senhor de uma vaidade que cegava.
Hoje, nenhum deles acredita mais em búzios, em tarô e no Destino."

[fábulas do amor distante, Marco Túlio Costa]

2 comentários:

daia disse...

lindo!
linkei o conto a conto no meu blog :)

pirilampia disse...

aurea disse:

"Está lindo! Está belo! Está apaixonante!!!

Parabéns a vocês!!!!"
Bjs,
Aurea