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quinta-feira, 6 de janeiro de 2022

Livros na Roda agora toda última sexta do mês

 



Todo mês na ultima SEXTA-FEIRA, às 18 horas. Ainda de forma remota, via Google Meet. Logo será de forma hibrida - presencial e remota. Para receber o link envie sua inscrição informando tambem seu numero de celular (se tiver) que enviaremos o link via Whatsapp para acessar a sala virtual, além de atualizações.

Também temos um grupo no Whatsapp, onde combinamos nossos encontros e trocamos ideias sobre nossas leituras. Se voce tiver interesse adicionaremos seu telefone nesse grupo para que voce possa receber nossas atualizações. 

Como funciona nossos encontros virtuais: 
Cada participante apresenta um livro que já leu, esta lendo, ou até mesmo um texto lido numa revista ou jornais ou redes, e coloca na roda. Apresenta o texto, le e diz porque aquele texto lhe chamou a atenção. Com um conjunto de leituras curtas trocamos ideias e uma leitura leva a outra e assim ampliamos nossas dicas de leituras e impressões sobre elas. Mas voce também pode participar apenas ouvindo as leituras, sem obrigação de ler algo ou trazer algo para a roda de leitura. O mais importante é o prazer do encontro entorno de um livro, de um texto.

Esperamos por voce em nossos encontros. Inscreva-se pelo email: contoaconto@gmail.com

segunda-feira, 3 de outubro de 2016

Participação do Conto a Conto no Seminário de Acessibilidade em Bibliotecas Públicas



Aconteceu  o dia 11 de setembro de 2016, nCasa Brasil - Armazém 1 do Pier Mauá
Avenida Rodrigues Alves, 10, na Praça Mauá, Rio de Janeiro-RJ.

Na mesa Livro, Leitura e Inclusão: Experiências e Narrativas, nomes do universo de livro e leitura discutirão o acesso das pessoas com deficiência à cultura, tais como Gilda Carvalho, vice-diretora do iiLer (Instituto Interdisciplinar de Leitura PUC-Rio); Cristiane Correia Taveira, professora adjunta da área de Educação Bilíngue do Departamento de Ensino Superior do INES/MEC (Instituto Nacional de Educação de Surdos); Edson Feitosa, bibliotecário e assessor nas áreas de Livro, Leitura, Literatura e Bibliotecas; e Carla Mauch, coordenadora da OSCIP Mais Diferenças.

À tarde, consultores da Mais Diferenças explicaram na Oficina: Livros Acessíveis e Mediação de Leitura Inclusiva o processo de concepção de livros de diferentes formatos acessíveis.

Para saber mais: http://acessibilidadeembibliotecas.culturadigital.br

quinta-feira, 25 de agosto de 2016

Livros na Roda dia 25 de agosto


Queridxs, 
Nosso encontro será dia 25 de agosto. Começaremos as 18h.
Traga um livro para a roda, aquele livro que voce acha importante apresentar, dizer pq gostou, escolha um trecho e leia para todos. Vamos dialogar atraves de leituras, de livros, autores, literatura. 
O último encontro foi bem bacana e já estamos no terceiro encontro. 
E assim vamos criando esse espaço tempo na nossa agenda para olhar o mundo... 

Diz o poeta que o teu olhar melhora o meu, vamos trocar figurinhas, personagens, idéias, historias, poemas... 
O mundo só é possível reinventado, diz Cecilia. Convidamos voce para reinventarmos juntos, vamos nessa? 

O café será servido às 18h. 
Aceitamos guloseimas para formar nossa mesa, 
mas se nao der, tudo bem, o cafe com bolo é garantido. rs

Beijos literários para cada um! 

Pode convidar seus amigos!

sexta-feira, 24 de junho de 2016

#comofoi nossa Roda de Leitura - Livro na Roda de junho\16













Agradecidos somos pela presença de todos. uma noite gostosa, friazinha mas no calor da literatura. cronicas, contos, resenhas, musica, filosofia, cafezinho, pastinha, rolou de tudo um pouco. na próxima será melhor ainda. terceira quinta de julho. 

quarta-feira, 22 de junho de 2016

Roda de Leitura


Encontros de leitura. Roda-viva de leituras.
Voce traz um livro que voce tenha lido e gostado, ou um texto literário, algo para compartilhar. Que voce ache importante e ser compartilhado. Caso nao tenha, nao tem problema, temos montes de livros aqui na biblioteca da Casinha e iremos dispor alguns na roda para consulta, manuseio, apresentação.
A idéia principal é compartilhar - leituras e vivencias. 
Ouvir e Ler, o mundo. Grande r-evolução. 
Conhecer, ampliar horizontes de leitura. 
No centro da roda, os livros. As trocas de interesses, o debate sobre o texto. E quem sabe a produção de resenhas que virão para o nosso blog? 
As 18h em torno da mesa do café iniciamos o nosso papo. 
Após, a roda inicia. 

O evento é gratuito, mas aceitamos contribuições para a mesa do lanche. E de livros, claro. 

Beijos e até lá.

evento no facebook clique aqui.

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2015

Vida


"Po-chang tinha tantos alunos que se viu obrigado a abrir outro mosteiro. Para achar alguém apto a ser mestre na nova casa, juntou seus monges e colocou um cântaro na frente deles dizendo:

- Sem o chamarem de cântaro, me digam o que é isso.
- Você não pode chamá-lo um pedaço de lenha, disse o monge principal. Nesta altura, o cozinheiro do mosteiro derrubou o cântaro com um pontapé e afastou-se.
Po-chang deu a direção do novo mosteiro ao cozinheiro."

Um koan, na biografia de Bashô, no livro Vida, de Paulo Leminski, Companhia das Letras.


Esse livro é a coisa mais linda de Deus - literalmente a de Jesus é incrivel! Humano e, portanto, como dizia Pessoa, divino! Leminski em prosa, fantástico! Um doce biografia - coisa de poeta pra poeta!

Em breve conto o resto...

Cira e o Velho



E como uma coisa lembra a outra... lembrei do livro!

Em setembro de 2014 escrevi assim: Sábado fui na Primavera Dos Livros, no jardim do Museu da República, no Catete. Adoro esse feira e mesmo sem nenhum tempo passei por lá. Corri as barracas rapidamente e pra nao dizer que nao falei de flores, ou de livros... comprei alguns, lógico, como não faze-lo? Um deles já estava na minha intenção faz tempo, e nao me decepcionou: Cira e o Velho, de Walter Tierno. O que posso dizer do livro se resume em uma frase: Li todo no fim de semana, até em voz alta algumas passagens para o público presente em casa e, finalmente, sonhei com o tema. O que mais se pode querer de um livro? Ah, a cereja do sunday: além de excelente história e delicioso texto, o livro ainda surpreende. Sabe, aquele que voce depois de ler a última página, vai e volta, le de novo "aquele trecho" para saber se entendeu direito... e fecha o livro dizendo...hum, ainda leio de novo esse danado nem que seja parte, rs... ficou agora esperando o próximo do autor. Já li também dele, Anardeus - e amei (como já dito). Indico os dois a todos que procuram ficção de qualidade. Ah, obviamente, os dois livros já estão nas prateleiras da biblioteca do Ponto de Leitura Conto a Conto para quem se interessar em pegar emprestado!

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2015

Anardeus


Nas feiras e sebos nunca procuro por algo especifico...procuro por algo que me surpreenda... Assim, na Primavera Dos Livros de 2013 comprei das mãos do autor Walter Tierno, o romance Anardeus - no calor da destruição. Giz Editorial. O que posso dizer? Não parei até terminar o livro. Personagem incrivel, incriveis, história surpreendente, bem escrito, ágil, rápido, cruel, seco, ilustrações bacanas, texto esculpido palavra a palavra, imagens passam feito rolo de cinema na cabeça do leitor. Não posso dizer: amei. Não seria possível (ou seria?) mas me causou estranhamento e pensar no que vi e ouvi, ops, li! #indico (para maiores de18 anos!)

E só conto que o personagem tem uma irmã, gêmea, que mora em São Paulo e sente frio... o resto é viagem, literalmente. 

Mas vai ai a sinopse do autor:

Anardeus nasce feio, cresce ignorado e se torna um adulto desagradável. Sente muito frio, o tempo todo, e só desfruta o conforto do calor quando testemunha tragédias e horrores. Ele odeia tudo e todos, menos sua irmã gêmea, Isabel, sua antítese: linda, amável e cheia de calor.
Anardeus, com a sua personalidade detestável, é um anti-herói incomum e, por isso mesmo, tão interessante. O mundo não deseja Anardeus. Anardeus não deseja o mundo. Mas terão que viver juntos até o final apocalíptico e perturbador.
Anardeus. No calor da destruição tem como cenário São Paulo e seus personagens cínicos, loucos, egoístas. Um romance sem rótulos ou lugar-comum, para ler e sentir tudo – menos indiferença.

sexta-feira, 20 de maio de 2011

O Dom da História

...

O amado Bal Shem Tov estava à morte e mandou chamar seus discípulos.

- Sempre fui o intermediário de vocês e agora, quando eu me for, vocês terão de fazer isso sozinhos. Vocês conhecem o lugar na floresta onde eu invoco a Deus? Fiquem parados naquele lugar e ajam do mesmo modo. Vocês sabem acender a fogueira e sabem dizer a oração. Façam tudo isso e Deus virá.

Depois que Bal Shem Tov morreu, a primeira geração obedeceu exatamente às suas instruções, e Deus sempre veio. Na segunda geração, porém, as pessoas já se haviam esquecido de como se acendia a fogueira do jeito que o Bal Shem Tov lhes ensinara. Mesmo assim, elas ficavam paradas no local especial na floresta, diziam a oração, e Deus vinha.

Na terceira geração, as pessoas já não se lembravam de como acender a fogueira, nem do local na floresta. Mas diziam a oração assim mesmo, e Deus ainda vinha.

Na quarta geração, ninguém se lembrava de como se acendia a fogueira, ninguém sabia mais que local  exatamente da floresta deveriam ficar e, finalmente, não conseguiam se recordar nem da própria oração. Mas uma pessoa ainda se lembrava da história sobre tudo aquilo e relatou com voz alta. E Deus ainda veio.

[de Clarissa Pinkola Estés, no livro o Dom da História: uma fábula sobre o que é suficiente - Editora Rocco, 1998]
Arte: Van Gogh.

notas:
Baal Shem significa Mestre do Nome.  

Baal Shem Tov significa Mestre do Divino Nome.
O Rabi Israel ben Eliezer ou Baal Shem Tov (1698 - 1760) possivelmente nasceu na Ucrânia, é fundador do hassidismo, movimento místico baseado na Cabala.



Meninos e Meninas, eu li:

O livrinho, pequeno mesmo, é tudo que um contador de histórias precisa saber - ele mesmo é o essencial! Não conta muitas histórias, apenas algumas, fundamentais. Mas todos os sentidos e sentimentos necessários a um contador de histórias, a um narrador, estão ali. A magia, o dom, a essência, a generosidade, a compreensão do outro, a boa vontade, a simplicidade, ... Feito livreto, desses que poetas vendem ou dão nas ruas, não dá conta da sua qualidade, pode enganar. Depois de Mulheres que correm com lobos, um tijolo bestseller, a autora se permite e nos permite o mínimo, o suficiente. Particularmente, essa é a minha história. Ouvi numa apresentação de teatro e nunca esqueci, busquei e anos depois a achei nesse livro. Reconto ao meu modo, mas a essência está lá e aqui. [por Lux]

terça-feira, 22 de dezembro de 2009

Motim a Bordo

clique na imagem para ver a página do livro e ler o conto.



[conto e ilustração de Pablo Bernasconi, no livro belíssimo Excessos e Exageros, da editora GIRAFINHA]

quinta-feira, 24 de setembro de 2009

As Palavras

Comecei minha vida como hei de acabá-la, sem dúvida: no meio dos livros.
No gabinete de meu avô, havia-os por toda parte; era proibido espaná-los exceto uma vez por ano antes do reinício das aulas em outubro. Eu ainda não sabia ler e já reverenciava essas pedras erigidas: em pé ou inclinadas, apertadas como tijolos nas prateleiras da biblioteca ou nobremente espacejadas em aléias de menires, eu sentia que a prosperidade de nossa familia dependia delas. Elas se pareciam todas; eu folgava num minúsculo santuário, circundado de monumentos atarracados, antigos, que me haviam visto nascer, que me veriam morrer e cuja permanência me garantia um futuro tão calmo como no passado. Eu os tocava às escondidas para honrar minhas mãos com sua poeira, mas não sabia bem o que fazer com eles e assistia todos os dias a cerimônias cujo sentido me escapava: meu avô - tão canhestro, habitualmente, que minha mãe lhe abotoava as luvas - manejava esses objetos culturais com destreza de oficiante. Eu o vi milhares de vezes levantar-se com ar ausente, contornar a mesa, atravessar o aposento com duas pernadas, apanhar um volume sem hesitar, sem se dar o tempo de escolher, folheá-lo, enquanto voltava à poltrona, com um movimento combinado do polegar e do índice, e depois, tão logo sentado, abri-lo com um golpe seco "na página certa", fazendo-o estalar como um sapato. Às vezes eu me aproximava a fim de observar aquelas caixas que se fendiam como ostras e descobria a nudez de seus órgãos interiores, folhas amarelecidas e emboloradas, ligeiramente intumescidas, cobertas de vênulas negras, que bebiam tinta e recendiam a cogumento.

No quarto da minha avó os livros ficavam deitados; tomava-os de empréstimo a uma biblioteca ambulante e nunca cheguei a ver mais do que dois ao mesmo tempo. Tais bagatelas me lembravam os confeitos de Ano Novo, porque suas folhas flexíveis e brilhantes pareciam cortadas em papel glacê. Vivas, brancas, quase novas, serviam de pretexto a mistérios ligeiros. Toda sexta-feira, minha avó vestia-se para sair e dizia: "Vou devolvê-lo"; de regresso, depois de desembaraçar-se do chapéu negro e do veuzinho, ela os tirava do regalo e eu me perguntava, mistificado: "Serão os mesmos?" Ela os "cobria" cuidadosamente e, após escolher um deles, instalava-se perto da janela, na sua bergère de orelheiras, punha os óculos, suspirava de ventura e lassitude, baixava as pálpebras com um fino sorriso voluptuoso que vim a encontrar depois nos lábios de Gioconda; minha mãe se calava, convidava-me a calar-me também; eu pensava na missa, na morte, no sono; enchia-me de um silêncio sagrado.

[de Jean-Paul Sartre, no livro As Palavras, da editora NOVA FRONTEIRA - páginas 30 a 32]

Meninos e meninas, eu li:

É importante destacar aqui que o livro de Sartre é antes um bate-papo com o autor, é uma confissão, mas também uma aula ou palestra sobre elas, as palavras - como se chegam, como algumas permanecem, como se faz essa aproximação, esse encanto, empatia e paixão. Livro sem a pretensão de um Sartre, mas é Sartre menino descobridor de tanto... "Às vezes eu me aproximava a fim de observar aquelas caixas que se fendiam como ostras e descobria a nudez de seus órgãos interiores..."- a relação sensual que relembra a menina Clarice com seu livro amante. "Eu os tocava às escondidas para honrar minhas mãos com sua poeira"... não há mais nada para ser dito... só um amante de livros pode entender... tão pura paixão. [por Lux]

ilustração de: Patricia Metola

quinta-feira, 4 de junho de 2009

A Árvore Generosa

Era uma vez uma Árvore que amava um menino.
E todos os dias, o menino vinha e juntava as suas folhas. E com elas fazia coroas de rei. E com a Árvore, brincava de rei da floresta. Subia no seu grosso tronco, balançava-se em seus galhos! Comia seus frutos.
e quando ficava cansado, o menino repousava à sua sombra fresquinha.
O menino amava a Árvore profundamente.
E a Árvore era feliz! Mas o tempo passou e o menino cresceu!
Um dia, o menino veio e a Árvore disse:
"Menino, venha subir no meu tronco, balançar-se nos meus galhos, repousar à minha sombra e ser feliz!"
"Estou grande demais para brincar", respondeu o menino. "Quero comprar muitas coisas. Você tem algum dinheiro que possa me oferecer?"
"Sinto muito", disse a Árvore, "eu não tenho dinheiro. Mas leve os frutos, Menino. Vá vendê-los na cidade, então terá o dinheiro e você será feliz!"
E assim o menino subiu pelo tronco, colheu os frutos e levou-os embora.
E a Árvore ficou feliz!

Mas o menino sumiu por muito tempo... E a Árvore ficou tristonha outra vez.
Um dia, o menino veio e a Árvore estremeceu tamanha a sua alegria, e disse: "Venha, Menino, venha subir no meu tronco, balançar-se nos meus galhos e ser feliz."
"Estou muito ocupado pra subir em Árvores", disse o menino. "Eu quero uma esposa, eu quero ter filhos e para isso é preciso que eu tenha uma casa. Você tem uma casa pra me oferecer?"
"Eu não tenho casa", disse a Árvore. "Mas corte os meus galhos, faça a sua casa e seja feliz."
O menino depressa cortou os galhos da Árvore e levou-os embora para fazer uma casa.
E a Árvore ficou feliz!

O menino ficou longe por um longo, longo tempo, e no dia que voltou, a Árvore ficou alegre, de uma alegria tamanha que mal podia falar.
"Venha, venha, meu Menino", sussurrou, "venha brincar!"
"Estou velho para brincar", disse o menino, "e estou também muito triste." "Eu quero um barco ligeiro que me leve pra bem longe. Você tem algum barquinho que possa me oferecer?"
"Corte meu tronco e faça seu barco", disse a Árvore. "Viaje pra longe e seja feliz!"
O menino cortou o tronco, fez um barco e viajou.
E a Árvore ficou feliz, mas não muito!

Muito tempo depois, o menino voltou.
"Desculpe, Menino", disse a Árvore. "não tenho mais nada pra te oferecer. Os frutos já se foram."
"Meus dentes são fracos demais pra frutos", falou o menino.
"Já se foram os galhos para você balançar", disse a Árvore.
"Já não tenho idade pra me balançar", falou o menino.
"Não tenho mais tronco pra você subir", disse a a Árvore.
"Estou muito cansado e já não sei subir", falou o menino.
"Eu bem que gostaria de ter qualquer coisa pra lhe oferecer", suspirou a Árvore. "Mas nada me resta e eu sou apenas um toco sem graça. Desculpe ... "
"Já não quero muita coisa", disse o menino, "só um lugar sossegado onde possa me sentar, pois estou muito cansado."
"Pois bem", respondeu a Árvore, enchendo-se de alegria. "Eu sou apenas um toco, mas um toco é muito útil pra sentar e descansar.
Venha, Menino, depressa, sente-se em mim e descanse."
Foi o que o menino fez.
E a Árvore ficou feliz. [de Shel Silvertein, Adaptado por Fernando Sabino,  Editora Cosac Naify]


Meninos e Meninas, eu li:

O texto de a Árvore Generosa está postado aqui, mas vale ter o livro nas mãos e contar para uma criança, para um adulto, para qualquer pessoa. Mostrar as figuras, ver a emoção nos olhos de cada uma. Shel - poeta, compositor, músico e cartunista com uma sensibilidade delicada. Sabino fez a tradução, ritmada como todo bom contador de histórias precisa. Livro de capa dura com ilustração em fundo verde, mas não carecia a foto do autor daquele tamanho no verso, chega a assustar - não pela aparência mas mesmo que fosse da pessoa mais linda do planeta, mesmo assim, naquele tamanho não haveria motivo... não sei o passou pela cabeça do editor quando aprovou aquela quarta capa. Enfim, isso não reduz a história nem as ilustrações. Vale a pena. [por Lux]

quarta-feira, 27 de agosto de 2008

Menina Bonita do Laço de Fita

Era uma vez uma menina linda, linda.
Os olhos pareciam duas azeitonas pretas brilhantes, os cabelos enroladinhos e bem negros.
A pele era escura e lustrosa, que nem o pelo da pantera negra na chuva.
Ainda por cima, a mãe gostava de fazer trancinhas no cabelo dela e enfeitar com laços de fita coloridas. Ela ficava parecendo uma princesa das terras da áfrica, ou uma fada do Reino do Luar.
E, havia um coelho bem branquinho, com olhos vermelhos e focinho nervoso sempre tremelicando. O coelho achava a menina a pessoa mais linda que ele tinha visto na vida.
E pensava:
- Ah, quando eu casar quero ter uma filha pretinha e linda que nem ela...
Por isso, um dia ele foi até a casa da menina e perguntou:
- Menina bonita do laço de fita, qual é o teu segredo para ser tão pretinha?
A menina não sabia, mas inventou:
­- Ah deve ser porque eu caí na tinta preta quando era pequenina...
O coelho saiu dali, procurou uma lata de tinta preta e tomou banho nela. Ficou bem negro, todo contente. Mas aí veio uma chuva e lavou todo aquele pretume, ele ficou branco outra vez.
Então ele voltou lá na casa da menina e perguntou outra vez:
- Menina bonita do laço de fita, qual é o seu segredo para ser tão pretinha?
A menina não sabia, mas inventou:
- Ah, deve ser porque eu tomei muito café quando era pequenina.
O coelho saiu dali e tomou tanto café que perdeu o sono e passou a noite toda fazendo xixi. Mas não ficou nada preto.
- Menina bonita do laço de fita, qual o teu segredo para ser tão pretinha?
A menina não sabia, mas inventou:
­- Ah, deve ser porque eu comi muita jabuticaba quando era pequenina.
O coelho saiu dali e se empanturrou de jabuticaba até ficar pesadão, sem conseguir sair do lugar. O máximo que conseguiu foi fazer muito cocozinho preto e redondo feito jabuticaba. Mas não ficou nada preto.
Então ele voltou lá na casa da menina e perguntou outra vez:
- Menina bonita do laço de fita, qual é teu segredo pra ser tão pretinha?
A menina não sabia e... Já ia inventando outra coisa, uma história de feijoada, quando a mãe dela que era uma mulata linda e risonha, resolveu se meter e disse:
- Artes de uma avó preta que ela tinha...
Aí o coelho, que era bobinho, mas nem tanto, viu que a mãe da menina devia estar mesmo dizendo a verdade, porque a gente se parece sempre é com os pais, os tios, os avós e até com os parentes tortos.
E se ele queria ter uma filha pretinha e linda que nem a menina, tinha era que procurar uma coelha preta para casar.
Não precisou procurar muito. Logo encontrou uma coelhinha escura como a noite, que achava aquele coelho branco uma graça.
Foram namorando, casando e tiveram uma ninhada de filhotes, que coelho quando desanda a ter filhote não para mais! Tinha coelhos de todas as cores: branco, branco malhado de preto, preto malhado de branco e até uma coelha bem pretinha. Já se sabe, afilhada da tal menina bonita que morava na casa ao lado.
E quando a coelhinha saía de laço colorido no pescoço sempre encontrava alguém que perguntava:
- Coelha bonita do laço de fita, qual é o teu segredo para ser tão pretinha?
E ela respondia:
- Conselhos da mãe da minha madrinha...

[de Ana Maria Machado, livro, da editora Ática]
ilustração: Claudius]


Meninos e Meninas, eu li:

O livro não carece de apresentações. As ilustrações são lindas, a autora é ótima, o tema urgente. Tudo perfeito. Mas encanta. E isso é o mais importante. Não adianta só estar certinho, tudo correto. Tem que encantar. Tem que ser boa história. Gentil, generosa, gostosa de ouvir e ouvir de  novo. Dar chance de inventar ampliar fazer maior imaginar cantar dançar enfim criar também. Quando ouvi a primeira vez me encantei... que menina mais bonita! Que autora fofa, que ilustração fofa... e lá fui eu comprar o livro... que dei. E comprei outro, dei também. E outro e outro e outro, e todos com o mesmo destino... ! Agora fico esperando uma edição com disquinho e as várias versões da musiquinha.. "Menina bonita do laço de fita, qual é o teu segredo para ser tão pretinha?" Você tem a sua? Então manda para a gente ouvir! [por Lux]

quarta-feira, 13 de agosto de 2008

Amores


O primeiro elefante criei, porque me foi dado e não lhe vi melhor destino.
O segundo comprei. Porque já não podia viver sem amor tão grande.

[de Marina Colasanti, em Zoológico: mini-contos Fantásticos, 2 ed. Rio de Janeiro: Nórdica, 1985.
Ilustração: Traci Bixby]

Meninos e Meninas, eu li:

Esse livro é de contos pequeninos, porém mais que isso: de contos poéticos, com ritmo. Viagens fantásticas, mundos imaginários, surrealismos. Livreto pequeno, de poucas páginas, com um mundo de possibilidades. Excelente para ter na maleta do contador de histórias. Com eles pode-se criar performances e brincadeiras, invenções de toda sorte. Tem a garrafa que voa quando abrimos a janela, o magico que é engolido pela cartola, a mulher que espera o marido toda uma vida...  e tanto mais. Leia e invente os seus, viaje nesse zoológico!  {por Lux}

domingo, 27 de abril de 2008

A função da arte

Diego não conhecia o mar. O pai, Santiago Kovadloff, levou-o para que descobrisse o mar. Viajaram para o Sul.
Ele, o mar, estava do outro lado das dunas altas, esperando.
Quando o menino e o pai enfim alcançaram aquelas alturas de areia, depois de muito caminhar, o mar estava na frente de seus olhos.
E foi tanta a imensidão do mar, e tanto seu fulgor, que o menino ficou mudo de beleza.
E quando finalmente conseguiu falar, tremendo, gaguejando, pediu ao pai:

- Me ajuda a olhar!

[de Eduardo Galeano, no Livro dos Abraços, da LPM]

Meninos e Meninas, eu li:

O Livro dos Abraços é um desses que você leva debaixo do braço para todo canto. Li um de bolso, pequeno grandioso. Depois em espanhol, tão charmoso. Em cada história ou texto uma deliciamento. Nao sei se existe a palavra, mas sei como se comporta... não há como explicar, só lendo. Li a primeira vez quando viajava num avião de Belém para Manaus. Livro nas mãos, quase terminado, olhei as janelas e vi um mar de águas, tantas águas... o Amazonas, imenso, de horizonte a horizonte só águas... chorei... pelo livro e pelas águas, pedia. Nunca mais fiquei livre de nenhum dos dois, carrego comigo. Do livro ja contei muitas histórias, do rio também. E fiz de presente na tentativa de inundar almas com ele, com eles. O autor podia só ter feito esse e já teria válido a existência, mas fez outros... a obra vale a pena ser visitada. Esse é só o começo... pelo abraço. [por Lux]

quinta-feira, 13 de dezembro de 2007

O Homem que Amava Caixas

Era uma vez um homem
O homem tinha um filho
O filho amava o homem
e o homem amava caixas.

Caixas grandes
caixas redondas
caixas pequenas
caixas altas
todos os tipos de caixas!

O homem tinha dificuldade em dizer ao filho que o amava;
então, com suas caixas, ele começou a construir coisas para seu filho.
Ele era perito em fazer castelos
e seus aviões sempre voavam...
a não ser, claro, que chovesse.

As caixas apareciam de repente, quando os amigos chegavam, e, nessas caixas, eles brincavam...
e brincavam...
e brincavam.

A maioria das pessoas achava que o homem era muito estranho.
Os velhos apontavam para ele.
As velhas olhavam zangadas para ele.
Seus vizinhos riam dele pelas costas.

Mas nada disso preocupava o homem,
porque ele sabia que tinham encontrado uma maneira especial de compartilharem...
o amor de um pelo outro.

[livro de Stephen Michael King, da Brinquebook]

Meninos e Meninas, eu li:

SMK é desse autores que a gente pode ler toda a obra sem receio de errar. Um ilustrador delicado e autor atento. Seus textos e desenhos são pura poesia. Esse é um poema. Para adultos e crianças de todas as idades, fala da qualidade das relações, hoje no pouco tempo que nos sobra entre tantos brinquedos digitais, inclusive esse onde nos conectamos. Há conexão mas afeto é raro. No livro o afeto se dá na ação, no fazer junto. Não esta em palavras, não há dialogo formal entre os personagens. Mas dialogam através de caixas... daquele objeto que seria o que encaixota, que esconde, que protege, que embala, que envia, que guarda... crianças gostam de caixas, fato. Como Calvin que prefere as caixas ao conteúdo que guardam. Gente grande que guarda a criança também gostam de caixas.. conheço várias. Talvez porque contém todas as possibilidades - podem ser uma casa, um carrinho, um berço, um transmutador celular... Caixas são lúdicas. São brinquedos em essência - não prontos, mas a serem criados, realizados, construídos. e podem ser tudo, tudo que a imaginação quiser. O dia que a industria de brinquedos perceber isso e os adultos também, talvez seja a falência da primeira e o dialogo geral do segundo.  [por Lux]

quarta-feira, 21 de novembro de 2007

Felicidade Clandestina


Ela era gorda, baixa, sardenta e de cabelos excessivamente crespos, meio arruivados. Tinha um busto enorme; enquanto nós todas ainda éramos achatadas. Como se não bastasse, enchia os dois bolsos da blusa, por cima do busto, com balas. Mas possuía o que qualquer criança devoradora de histórias gostaria de ter: um pai dono de livraria.
Pouco aproveitava. E nós menos ainda: até para aniversário, em vez de pelo menos um livrinho barato, ela nos entregava em mãos um cartão-postal da loja do pai. Ainda por cima era de paisagem do Recife mesmo, onde morávamos, com suas pontes mais do que vistas. Atrás escrevia com sua letra bordadíssima palavras como “data natalícia” e “saudade”.
Mas que talento tinha para a crueldade. Ela toda era pura vingan­ça, chupando balas com barulho. Como essa menina devia nos odiar, nós que éramos imperdoavelmente bonitinhas, esguias, altinhas, de ca­belos livres. Comigo exerceu com calma ferocidade o seu sadismo. Na minha ânsia de ler, eu nem notava as humilhações a que ela me subme­tia: continuava a implorar-lhe emprestados os livros que ela não lia.
Até que veio para ela o magno dia de começar a exercer sobre mim uma tortura chinesa. Como casualmente, informou-me que possuía as Reinações de Narizinho, de Monteiro Lobato.
Era um livro grosso, meu Deus, era um livro pra se ficar vivendo com ele, comendo-o, dormindo-o. E completamente acima de minhas posses. Disse-me que eu passasse pela sua casa no dia seguinte e que ela o emprestaria.
Até o dia seguinte eu me transformei na própria esperança da alegria: eu não vivia, eu nadava devagar num mar suave, as ondas me levavam e me traziam.

No dia seguinte fui à sua casa, literalmente cor­rendo. Ela não morava num sobrado como eu, e sim numa casa. Não me mandou entrar. Olhando bem para meus olhos, disse-me que havia emprestado o livro a outra menina, e que eu voltasse no dia seguinte para buscá-lo. Boquiaberta, saí devagar, mas em breve a esperança de novo me tomava toda e eu recomeçava na rua a andar pulando, que era meu modo estranho de andar pelas ruas do Recife. Dessa vez nem cai: guiava-me a promessa do livro, o dia seguinte viria, os dias seguintes seriam mais tarde a minha vida inteira, o amor pelo mundo me esperava, andei pulando pelas ruas como sempre e não caí nem uma vez.
Mas não ficou simplesmente nisso. O plano secreto da filha do dono de livraria era tranqüilo e diabólico. No dia seguinte lá estava eu à porta de sua casa, com um sorriso e o coração batendo. Para ouvir a resposta calma: o livro ainda não estava em seu poder, que eu voltasse no dia seguinte. Mal sabia eu como mais tarde, no decorrer da vida, o drama do “dia seguinte” com ela ia se repetir com meu coração batendo.
E assim continuou. Quanto tempo? Não sei. Ela sabia que era tempo indefini­do, enquanto o fel não escorresse todo de seu corpo grosso. Eu já começara a adivi­nhar que ela me escolhera para eu sofrer, às vezes adivinho. Mas, adivinhando mes­mo, às vezes eu aceito: como se quem quer me fazer sofrer esteja precisando danadamente que eu sofra.
Quanto tempo? Eu ia diariamente à sua casa, sem faltar um dia sequer. Às vezes ela dizia: pois o livro esteve comigo ontem de tarde, mas você só veio de manhã, de modo que o emprestei a outra menina. E eu, que não era dada a olheiras, sentia as olheiras se cavando sob os meus olhos espantados.
Até que um dia, quando eu estava à porta de sua casa, ouvindo humilde e silenciosa a sua recusa, apareceu sua mãe. Ela devia estar estranhando a aparição muda e diária daquela menina à porta de sua casa. Pediu explicações a nós duas, houve uma confusão silenciosa, entrecortada de palavras pouco elucidativas. A se­nhora achava cada vez mais estranho o fato de não estar entendendo. Até que essa mãe boa entendeu. Voltou-se para a filha e com enorme surpresa exclamou: mas este livro nunca saiu daqui de casa e você nem quis ler!
E o pior para essa mulher não era a descoberta do que acontecia. Devia ser a descoberta horrorizada da filha que tinha. Ela nos espiava em silêncio: a potência de perversidade de sua filha desconhecida e a menina loura em pé à porta, exausta, ao vento das ruas de Recife. Foi então que, finalmente se refazendo, disse firme e calma para a filha: você vai emprestar o livro agora mesmo. E para mim: “E você fica com o livro por quanto tempo quiser.” Entendem? Valia mais do que me dar o livro: “pelo tempo que eu quisesse” é tudo o que uma pessoa, grande ou pequena, pode ter a ousadia de querer.
Como contar o que se seguiu? Eu estava estonteada, e assim recebi o livro na mão. Acho que eu não disse nada. Peguei o livro. Não, não saí pulando como sem­pre. Saí andando bem devagar. Sei que segurava o livro grosso com as duas mãos, comprimindo-o contra o peito. Quanto tempo levei até chegar em casa, também pouco importa. Meu peito estava quente, meu coração pensativo.
Chegando em casa, não comecei a ler. Fingia que não o tinha, só pra depois ter o susto de o ter. Horas depois abri-o, li algumas linhas maravilhosas, fechei-o de novo, fui passear pela casa, adiei ainda mais indo comer pão com manteiga, fingi que não sabia onde guardara o livro, achava-o, abria-o por alguns instantes. Criava as mais falsas dificuldades para aquela coisa clandestina que era a felicidade. A felicidade sempre iria ser clandestina para mim. Parece que eu já pressentia. Como demorei! Eu vivia no ar... Havia orgulho e pudor em mim. Eu era uma rainha delicada.
As vezes sentava-me na rede, balançando-me com o livro aberto no colo, sem tocá-lo, em êxtase puríssimo.
Não era mais uma menina com um livro: era uma mulher com seu amante.

[em Felicidade Clandestina, de Clarice Lispector, da Rocco]


Meninos e Meninas, eu li:
O livro é de contos, de Clarice. Fechamos a dica porque não carece dizer mais nada. Mas dizemos porque para isso estamos aqui. Então, podemos acrescentar, se é que realmente fará diferença, que o livro é uma delicia. Os contos, os temas, a abordagem, a linguagem ou seja lá como classifiquemos a forma de Clarice nos falar sobre coisas tão intimas e profundas a partir de coisas simples e cotidianas, memórias e qualquer coisa. Leia, durma com ele, não acredite que entendeu tudo na primeira lida! Atenção! Muita atenção. É preciso conviver, reler, viver, ler de novo, ser delicada feito a menina rainha Clarice. E, então, talvez, depois de uma vida inteira ou um lapso de segundo, ser feliz, voce e seu amante, clandestinamente. Bom êxtase!