sábado, 16 de julho de 2011
Histórias da África, por Chris Abani
sexta-feira, 20 de maio de 2011
O Dom da História
Arte: Van Gogh.
Baal Shem significa Mestre do Nome.
Baal Shem Tov significa Mestre do Divino Nome.
O Rabi Israel ben Eliezer ou Baal Shem Tov (1698 - 1760) possivelmente nasceu na Ucrânia, é fundador do hassidismo, movimento místico baseado na Cabala.
Meninos e Meninas, eu li:
O livrinho, pequeno mesmo, é tudo que um contador de histórias precisa saber - ele mesmo é o essencial! Não conta muitas histórias, apenas algumas, fundamentais. Mas todos os sentidos e sentimentos necessários a um contador de histórias, a um narrador, estão ali. A magia, o dom, a essência, a generosidade, a compreensão do outro, a boa vontade, a simplicidade, ... Feito livreto, desses que poetas vendem ou dão nas ruas, não dá conta da sua qualidade, pode enganar. Depois de Mulheres que correm com lobos, um tijolo bestseller, a autora se permite e nos permite o mínimo, o suficiente. Particularmente, essa é a minha história. Ouvi numa apresentação de teatro e nunca esqueci, busquei e anos depois a achei nesse livro. Reconto ao meu modo, mas a essência está lá e aqui. [por Lux]
sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011
Chimamanda Adichie: O perigo de uma única história
PARTE 2:
quarta-feira, 25 de agosto de 2010
Cético
Não acreditava em fantasmas, nem em alma penada, mas naquela noite,já começava a incomodar aquelas inexplicáveis mãos frias nos seus pés.
(Lucia Helena Ramos, mini-conto escolhido a ser publicado no e-book Contos Mínimos, concurso do Simpósio Internacional de Contadores de Histórias. Foto: Ney Robinson)
sexta-feira, 7 de maio de 2010
Carta de Lygia Clark para seu filho
Meu filho,Você é um ser.
Existe na medida do mundo.
É pouco.
O mundo é a constatação da realidade exterior que te cerca.
É a tua medida inicial.
É o teu começo mas não o teu fim.
É o chão da tua expressividade pois você é um ser vertical.
Para cima do chão há o “invisível”.
Você pode olhar os seus pés mas não a sua própria imagem.
Esta você a percebe.
Na verticalidade está a medida da sua procura.
Quando você aceitar a simples constatação da vida, aí sim, será o seu começo.
O primeiro sentimento será de perda pois tudo que cai na constatação é vivido como ganho.
Tudo adquirido como perda até a integração absoluta do “o percebido” no seu interior.
É a própria dinâmica da vida: perde-ganha.
Quando você se sentir no mais absoluto desespero você está sendo salvo.
Solte e aceite a tua intuição que te levará a uma aparente solução – solução esta sempre provisória.
Aceite o provisório pois jamais o processo pode parar.
A vida pode vir a ser uma realidade extraordinária desde que você esteja voltado para sua procura interior.
Não há realidade independente do “interior de si”.
Desconfie das coisas claras, a pureza é descoberta dentro da maior conturbação de uma crise. É o ponto luminoso dentro da maior escuridão.
O teu corpo meu filho, é o veículo da tua vivência.
Não o impeça de florir por nada. Cuide dele como você cuida do teu carro.
Toda a tua riqueza interior vai suá-lo, sujá-lo, e até sangrá-lo.
Quando ele estiver gasto externamente você mesmo estará mais inteiriço e completo interiormente.
Você o despirá um dia como a crisálida deixa o casulo.
Ai de você se neste momento você é ainda o início não elaborado pois aí você vai saber que esteve permanentemente morto em vida.
de Lygia Clark, 1970.
Imagem: Helio Oiticica.
segunda-feira, 12 de abril de 2010
Uma vez na Alemanha

Uma vez na Alemanha
Estando só e carente
me apaixonei por um pôster
que via diariamente.
Loira mulher sorridente
de maiô, doirada e quente,
e eu ali, ao léu, no frio
passando na sua frente. [...]
Eis quando
tudo muda de repente:
me tiraram o cartaz da rua.
Querem que eu ame agora
um anuncio de detergente.
[Affonso Romano de Sant’anna.
ilustraçao de Jana Magalhães]
enviado por Paulinha =)
quarta-feira, 24 de fevereiro de 2010
A Lenda da Pororoca
autor: Joseli Dias, nascido em Macapá em 24 de março de 1966, e falecido em 8 de agosto de 2018, e esse conto está no seu livro Mitos e Lendas do Amapá.quinta-feira, 4 de fevereiro de 2010
Conan, o Cão

Meu nome é Igor, tenho dez anos de idade e portanto sou considerado uma criança. Tenho uma vida restrita por um monte de obrigações, regras e acima de tudo, proibições. Muitas proibições. É justamente por isso que freqüentemente me encontro debaixo da minha escrivaninha, onde tento elaborar saídas para os dilemas do meu dia-a-dia. Até pouco tempo, quando as coisas não aconteciam da maneira como eu queria, eu me considerava um fracassado. É claro que eu lutava, mas as forças opostas eram muito maiores. No entanto, existe um ponto na vida de toda criança em que é preciso lutar contra os nãos que os adultos dizem para a gente. Comecei minha batalha contra as autoridades quando fui proibido de ter um bicho de estimação.
Aquilo para mim foi a gota d'água. Não era como querer ir a um parque de diversões, ao shopping, ou comprar um brinquedo qualquer. Eu precisava de um bicho. Era algo que eu não sossegaria enquanto eu não conseguisse. E como não podia deixar de ser, meus pais proibiram. Sem nenhum motivo sequer. Simplesmente disseram não, como todos os outros nãos anteriores.
Eles não compreenderam que a situação era diferente. Mesmo sabendo de todas as dificuldades que eu encontraria, decidi ir atrás do meu bicho. Eu enfrentaria a Dona da Casa, meu pai e quem mais fosse preciso. Estava determinado, só precisava de um plano e um companheiro ou companheira para me ajudar na batalha. Quanto a isso, pelo menos, eu tenho sorte. Minha vó é uma aliada para qualquer crise.
Vó Ursula sempre me ajudou, até nas coisas mais proibidas e perigosas. Ela é doida de pedra e sempre concorda com as minhas idéias. Ela foi a primeira pessoa a saber do meu plano, e durante um bom tempo foi a única. Lembro-me da nossa primeira conversa, quando elaboramos nossa estratégia. Pedalei até sua casa para lhe explicar a situação. Só não contava com uma coisa; Vó Ursula tinha acabado de entrar numa fase espiritual. Chegando lá, a encontrei diante de um altar cheio de velas. Ela rezava, compenetrada. Fui entrando pé ante pé e esperei que ela terminasse. Quando acabou me deu um beijinho, a benção e perguntou o que eu estava aprontando.
Contei o que eu pretendia aprontar. Ela ouviu calmamente e disse que eu devia pedir ajuda de Deus. Achei aquilo estranhíssimo, pois Vó Ursula é uma mulher de ação. Perguntei se Deus demoraria para atender e ela respondeu que dependia da intensidade da reza. Não era bem o tipo de ajuda que eu queria, mas como era conselho da minha vó, achei melhor respeitar, meio a contragosto, mas segui a orientação. À noite, antes de dormir, me ajoelhava ao pé da cama e pedia a Deus que mandasse um cachorrinho para mim. Noite após noite, durante meses, eu rezei. De dia continuava tramando planos mirabolantes, mas que nunca davam certo.
Papai ainda morava conosco nessa época. Um dia, durante o jantar, ele disse:
- Ígor, temos uma surpresa para você!
Soube na hora que finalmente Deus tinha ouvido minhas preces e eu ganharia meu cãozinho. Ele continuou:
- Sua mãe está grávida!
Fiquei chocado. Fui bem específico. Encomendei um cachorro, até a raça eu escolhi; queria um dálmata. Não tinha como Deus se confundir. Toda santa noite eu falava em voz alta, para não ter engano: "Câmbio. Deus, aqui quem fala é o Ígor, filho da Bia com o Pedrão, nascido em treze de junho, neto da Vó Ursula. Meu pedido é: um cachorrinho, dálmata, macho e sem pulgas. É só. Obrigado, Ígor. Câmbio e desligo."
Olhei para mamãe, que tentava conter um sorriso encabulado. Dei-lhe um abraço e vim para debaixo da escrivaninha. Tentava entender onde errei. Tinha feito tudo conforme Vó Ursula mandou, e Deus costuma atender esses pedidos do dia-a-dia. Ainda mais o meu, que era tão simples. Para quem já fez dinossauros, o que custava fazer mais um cachorro? Alguma coisa muito estranha estava acontecendo. Então, como uma luz que acendeu sobre minha cabeça, percebi o truque divino. Na verdade, eu teria um cão-irmão. Claro, dessa maneira, se o cachorro viesse de dentro da barriga da minha mãe, ela não teria como proibir. Genial! Deus percebeu o quanto eu queria um cachorro e resolveu fazer um servicinho a mais, enviando um irmão-cachorro.
Era totalmente possível! Outro dia mesmo eu tinha visto na televisão um homem com rabo. Um rabão enorme. Ele abaixou as calças em frente à camera e mostrou um rabo peludo, grudado na bunda. Eu nunca imaginei que uma coisa dessas fosse acontecer na minha família, mas acontece. Vó Ursula mesmo vivia dizendo que Deus tem suas maneiras de fazer as coisas. Solucionado o caso! Eu não contei para ninguém, porque é esquisito e também porque ninguém acreditaria em mim.
Acompanhei a gravidez de bico calado. Era uma questão de tempo até o cãozinho estar completamente formado dentro da barriga da minha mãe. Passei esses meses planejando meus passeios com Conan, o Cão. Esse é o nome que eu daria para ele, em homenagem ao meu pai, que me apresentou esse antigo herói de revistas em quadrinhos.
Bem, na verdade, quando vi mamãe comprando roupinhas de bebê, senti um pouco de dó. Temi que ela ficasse decepcionada com a surpresa. Ela acreditava que teria uma menina, coitada. Nem passava pela sua cabeça ser mãe de um dálmata. Pensei em lhe dizer a verdade, mas não tive coragem. Apenas perguntei:
- Mãe, você vai amar o bebê mesmo que ele seja diferente?
- Claro - ela respondeu. - Eu vou amá-lo igualzinho eu amo você.
Pronto, era o que eu precisava saber. Não tocaria mais no assunto para não levantar suspeitas. Quer dizer, na verdade, insisti mais um pouco.
- Mesmo que ele nasça com orelha, rabo, pêlo, que nem a gente vê na televisão?
- Vou amá-lo mesmo que seja um monstrinho - ela respondeu, sorridente.
- Que legal, mãe!
Eu tinha feito minha parte. Disse, mesmo não dizendo diretamente, o que vinha pela frente. Confesso que fiquei impressionado com a reação dela. Não esperava que ela fosse tão compreensiva. Se eu soubesse, teria rezado por um monstrinho, como ela mesma sugeriu. Seria até mais divertido que um cachorro. Mas agora era tarde demais. O bicho estava quase para nascer.
Fui paciente e um belo dia, ao final de nove meses, meus pais foram para a maternidade. Fiz questão de ir junto e acompanhar o grande acontecimento. Aguardei sentado na sala de espera, junto com a Vó Ursula. Por maior que fosse minha vontade de lhe revelar o que estava prestes a acontecer, não disse um pio. Quando a enfermeira me chamou para entrar no quarto, fiquei emocionado.
- Você já pode entrar para ver - ela disse.
Pelo olhar da enfermeira soube que tudo correra bem e que mamãe tinha aceito o cãozinho como um filho de verdade. Entrei correndo no quarto, pronto para pegar Conan; O Cão no colo, quando vi minha mãe segurando um bebê de verdade.
- Cadê? - perguntei, espantado.
- Aqui, ué. Nesse embrulhinho - ela respondeu, sacudindo um volume cor-de-rosa.
Pulei na cama. Era um bebê mesmo, e o que é pior, uma menina! Credo!
Aquele bebê passou a viver conosco. Levaram-na para casa no mesmo dia, com a maior naturalidade do mundo, como se nada de errado tivesse acontecido. Ela chorava que nem um bezerro desmamado e todo mundo achou aquilo lindo. Obviamente eu tinha sido enganado, mas a essa altura do campeonato, eu já estava louco para ter um cachorro. Fui direto ao ponto e pedi novamente, não para Deus, mas para minha mãe mesmo. E o que eu ouvi como resposta?
"Agora com a Gabi em casa não podemos ter um cachorrinho tão cedo."
Algumas crianças ganham cães, eu ganhei uma irmãzinha. Fiquei arrasado, achava que meu destino era acabar só. Estava quase me conformando com a situação quando o bebê chorão calou a boca e para meu espanto, começou a engatinhar. Aliás, finalmente aquele serzinho mostrava algum sinal de inteligência, porque até então ela era um pacote que a coitada da minha mãe carregava de um lado para outro.
Vendo Gabriela engatinhar toda desengonçada, fiz o que qualquer pessoa normal faria, joguei um carrinho em sua direção para ver se ela pegava. Se ela pegasse eu a treinaria com um osso de plástico. E não é que a danada foi atrás do carrinho? Parecia um milagre! Fiquei tão feliz que a partir desse dia passei a chamá-la de Conan, a Cadela. Durante os meses seguintes a gente brincou muito, rolávamos no chão, conversávamos latindo um com o outro, para onde eu fosse Conan, a Cadela ia atrás. Não tão ligeiro quanto eu gostaria, mas ia. Era uma companhia legal. Eu a imaginava com orelhas, dentes e a pele manchada de preto e branco. Nunca consegui colocar uma coleira nela e levá-la para passear, mas ensinei alguns truques que ela aprendeu rapidinho. Eu me divertia, de certa forma. Mas para minha tristeza, um dia Conan aprendeu a falar e daí não tive mais como fingir. Aquilo virou gente mesmo.
[texto de Indigo, do livro Saga Animal, Editora Hedra. Ilustração de Bruno Galan]
quarta-feira, 6 de janeiro de 2010
Pisca-pisca
"A vida das gentes neste mundo, Senhor Sabugo, é isso. Um rosário de piscadas. Cada pisco é um dia.
Pisca e mama.
Pisca e brinca.
Pisca e ama.
Pisca e cria filhos.
Pisca e geme reumatismos.
Por fim, pisca pela última vez e morre.
- E depois que morre? - perguntou o Visconde.
- Depois que morre vira hipótese. É ou não é?"
(Monteiro Lobato, Memórias de Emília)
terça-feira, 22 de dezembro de 2009
Motim a Bordo

[conto e ilustração de Pablo Bernasconi, no livro belíssimo Excessos e Exageros, da editora GIRAFINHA]
quinta-feira, 24 de setembro de 2009
As Palavras
Comecei minha vida como hei de acabá-la, sem dúvida: no meio dos livros.No gabinete de meu avô, havia-os por toda parte; era proibido espaná-los exceto uma vez por ano antes do reinício das aulas em outubro. Eu ainda não sabia ler e já reverenciava essas pedras erigidas: em pé ou inclinadas, apertadas como tijolos nas prateleiras da biblioteca ou nobremente espacejadas em aléias de menires, eu sentia que a prosperidade de nossa familia dependia delas. Elas se pareciam todas; eu folgava num minúsculo santuário, circundado de monumentos atarracados, antigos, que me haviam visto nascer, que me veriam morrer e cuja permanência me garantia um futuro tão calmo como no passado. Eu os tocava às escondidas para honrar minhas mãos com sua poeira, mas não sabia bem o que fazer com eles e assistia todos os dias a cerimônias cujo sentido me escapava: meu avô - tão canhestro, habitualmente, que minha mãe lhe abotoava as luvas - manejava esses objetos culturais com destreza de oficiante. Eu o vi milhares de vezes levantar-se com ar ausente, contornar a mesa, atravessar o aposento com duas pernadas, apanhar um volume sem hesitar, sem se dar o tempo de escolher, folheá-lo, enquanto voltava à poltrona, com um movimento combinado do polegar e do índice, e depois, tão logo sentado, abri-lo com um golpe seco "na página certa", fazendo-o estalar como um sapato. Às vezes eu me aproximava a fim de observar aquelas caixas que se fendiam como ostras e descobria a nudez de seus órgãos interiores, folhas amarelecidas e emboloradas, ligeiramente intumescidas, cobertas de vênulas negras, que bebiam tinta e recendiam a cogumento.
No quarto da minha avó os livros ficavam deitados; tomava-os de empréstimo a uma biblioteca ambulante e nunca cheguei a ver mais do que dois ao mesmo tempo. Tais bagatelas me lembravam os confeitos de Ano Novo, porque suas folhas flexíveis e brilhantes pareciam cortadas em papel glacê. Vivas, brancas, quase novas, serviam de pretexto a mistérios ligeiros. Toda sexta-feira, minha avó vestia-se para sair e dizia: "Vou devolvê-lo"; de regresso, depois de desembaraçar-se do chapéu negro e do veuzinho, ela os tirava do regalo e eu me perguntava, mistificado: "Serão os mesmos?" Ela os "cobria" cuidadosamente e, após escolher um deles, instalava-se perto da janela, na sua bergère de orelheiras, punha os óculos, suspirava de ventura e lassitude, baixava as pálpebras com um fino sorriso voluptuoso que vim a encontrar depois nos lábios de Gioconda; minha mãe se calava, convidava-me a calar-me também; eu pensava na missa, na morte, no sono; enchia-me de um silêncio sagrado.
[de Jean-Paul Sartre, no livro As Palavras, da editora NOVA FRONTEIRA - páginas 30 a 32]
Meninos e meninas, eu li:
É importante destacar aqui que o livro de Sartre é antes um bate-papo com o autor, é uma confissão, mas também uma aula ou palestra sobre elas, as palavras - como se chegam, como algumas permanecem, como se faz essa aproximação, esse encanto, empatia e paixão. Livro sem a pretensão de um Sartre, mas é Sartre menino descobridor de tanto... "Às vezes eu me aproximava a fim de observar aquelas caixas que se fendiam como ostras e descobria a nudez de seus órgãos interiores..."- a relação sensual que relembra a menina Clarice com seu livro amante. "Eu os tocava às escondidas para honrar minhas mãos com sua poeira"... não há mais nada para ser dito... só um amante de livros pode entender... tão pura paixão. [por Lux]
ilustração de: Patricia Metola
sábado, 5 de setembro de 2009
Humaninhos
Darwin nos informou que somos primos dos macacos, e não dos anjos. Depois, ficamos sabendo que vínhamos da selva africana e que nenhuma cegonha nos tinha trazido de Paris. E não faz muito tempo ficamos sabendo que nossos genes são quase iguaizinhos aos genes dos ratos.
Já não sabemos se somos obras-primas de Deus ou piadas do Diabo. Nós, os humaninhos:
os exterminadores de tudo,
os caçadores do próximo,
os criadores da bomba atômica, da bomba de hidrogênio e da bomba de nêutrons, que é a mais saudável de todas porque liquida as pessoas, mas deixa as coisas intactas.
Os únicos animais que inventam máquinas,
os únicos que vivem ao serviço das máquinas que inventam,
Os únicos que devoram sua casa,
os únicos que envenenam a água que lhes dá de beber e a terra que lhes dá de comer;
os únicos capazes de alugar-se ou vender-se ou de alugar ou vender os seus semelhantes,
os únicos que matam por prazer,
os únicos que torturam,
os únicos que violam.
E também
os únicos que riem,
os únicos que sonham acordados,
os únicos que fazem seda da baba dos vermes,
os que convertem lixo em beleza,
os que descobrem cores que o arco-íris desconhece,
os que dão novas músicas às vozes do mundo
e criam palavras, para que não sejam mudas
nem a realidade nem sua memória.
[de Eduardo Galeano, no livro Espelhos - uma história quase universal]
